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domingo, 31 de dezembro de 2017

O SEGREDO DA ALMA DESCONHECIDA

     Gregory sempre foi um rapaz alegre e sem dificuldade de fazer amigos. Morou na casa de seus pais até completar 21 anos, quando decidiu que queria se mudar. Moravam em um bairro de médio porte, localizado longe da "Grande Metrópole", assim chamado o centro da cidade. De tantos amigos que fez pela sua vizinhança, destacava-se três desde a infância: Lucas, Gabriel e Marcelo. Todos, por mera coincidência, possuíam a mesma idade, inclusive Gregory.
     Os quatro amigos além da amizade, tinham algo em comum: Libertaram uma alma maligna e perversa em um jogo, na adolescência. Presenciaram uma experiência muito desagradável e nada reconfortante. Combinaram que nunca mais iriam tocar no assunto novamente, e aguardaram com muito medo o que poderia acontecer com cada um depois disso.
     No entanto, nada aconteceu de imediato. Dias de passaram. Logo passou-se meses, e em um piscar de olhos, passou-se anos. Os amigos deixaram de se falar como antes, seguindo cada um, passos diferentes na vida. Gabriel foi morar fora da cidade e se tornou professor em uma universidade pública. Marcelo e Gregory arriscaram suas vidas juntos. Alugaram e dividiram um aconchegante apartamento no centro da cidade. Mas a convivência dos dois durou apenas três meses. Se desentenderam e discutiram, Marcelo retornou para o amado bairro, onde conseguiu um emprego na loja de quadrinhos. Gregory continuou na Grande Metrópole, se formou em jornalismo e manteve o apartamento sozinho. Ligava para os seus pais frequentemente e sempre dizia que iria visitá-los, mas nunca de fato chegou a ir. O grande mistério foi o paradeiro de Lucas, nenhum dos rapazes e nenhum dos moradores do bairro, ouviram mais falar sobre ele.
     Passaram-se então, 15 anos desde a libertação da alma maligna. Todos haviam esquecido desse acontecimento. Mas em um certo dia, 04/04/2022 especificadamente, a própria alma relembrou violentamente e individualmente cada membro do grupo...
     Gregory havia chegado ao seu lugar de nascimento, seu tão querido bairro de infância, depois de alguns meses sem visitar seus pais, chega de surpresa para surpreendê-los. Mas acaba sendo surpreendido. Ao chegar na entrada de sua antiga casa, percebe que a porta já estava aberta. A televisão estava ligada e em um canal de programação religiosa. Seus pais estavam mortos e seus corpos estavam no chão. Ambos tinham tido suas cabeças arrancadas, não possuíam braços e nem pernas. Gregory conseguiu apenas chorar. E chorou. Chorou tanto que não aguentou mais o peso de seu corpo. Despencou. Arrastou-se para perto do que restou dos corpos de sua família, abraçou-os e chorou... Inclinou-se para frente para que seu coração ficasse próximos a eles, sua mãe e seu pai... Não aguentou. Chorou novamente. Não conseguia conter as lágrimas, palavras nenhuma era capaz de sair de sua boca. O sangue de sua família, que foi tirado de uma forma tão brutal, macabra, se consolidou com lágrimas carregadas de amor, o amor que sentia por eles, por ódio, o ódio que estava sentido por não saber quem poderia ter feito aquilo e tristeza por nunca mais poder sentir o beijo e o abraço de seus pais... Gregory não parou, chorava e gritava, até que seu corpo não aguentou mais e ele desmaiou.

A alma desconhecida neste momento, em algum lugar daquele bairro, pronunciou: um.

     Lucas em um limbo dos sonhos, sente um doce beijo em seu rosto. 
- Levanta papai, vamos logo! - Dizia a menina. Não aparentava ter mais do que 7 anos. 
- Anda papai, acorda. Vamos logo! - Continuou dizendo, docemente.
- FILHA! - Acorda desesperadamente Lucas. A palavra sai de sua boca com tristeza. Como se rasgasse seu coração ao pronunciá-la. Mas seu coração realmente estava rasgado. Não havia filha. 
Há mais de 2 anos...
     Após alguns minutos olhando fixamente para o teto do quarto, Lucas se levanta da cama, calça seus chinelos e vai até a porta. O quarto era todo branco. Não havia janela. Apenas uma cama, uma pia em um espelho. Ao abir a porta, de súbito ouviu-se todo o alvoroço do corredor. Lucas caminhou entre as pessoas e foi em direção ao pequeno parque no jardim.
     O hospício da cidade era pequeno, a única atração para os pacientes realmente era o parque, fora isso, existia a biblioteca, mas não era muito bem recebido os modos de tratamento da bibliotecária. O jardim era muito bem cuidado e planejado ecologicamente, havia balanços e alguns bancos. Destaque para a grande árvore no centro de todo o pátio da clínica. Lucas se dirige aos balanços mais próximos a linda árvore. Os monitores apenas acompanham os pacientes com olhares. Estão mais longe do que deveriam estar. Lucas aproveita isso. Sentou - se no balanço e começou retirar de sua calça a corda que a mantinha amarrada em sua cintura. Amarrou um pedaço dela em seu pescoço e deixou que sobrasse ainda mais ou menos uns trinta centímetros. Observou atentamente onde se posicionava cada monitor do pátio e viu que todos estavam longe para terem no campo de visão. Posicionou-se em pé no balanço e amarrou a sobra da corda onde os ganchos das correntes do balanço estavam conectados...
     Os monitores e alguns pacientes só o viram depois que o corpo se movia apenas com a força do vento. Seus pés estavam a dez centímetros do chão. Não foi uma morte rápida. Lucas sofreu muito antes de partir. Mas, partiu...

A alma desconhecida neste momento, em algum lugar daquele bairro, pronunciou: dois.

- O professor! - Chamou o aluno.
- Sim, Isack?!
- Pode me dizer como posso participar do conselho acadêmico nesse fim de semana?
- Todas as informações sobre esse assunto, estão disponíveis na biblioteca da universidade - Responde grosseiramente o professor.
- Ah... - O aluno se sente constrangido. - Obrigado.
     O professor Gabriel não era conhecido por ser alguém de bom humor, mas sim pelo seu entendimento sobre Física Quântica. Seus métodos de ensino eram esplendorosos. Sempre carregava um pequeno livro com uma capa preta, era quase seu amuleto. Estava iniciando a pagar o quadro quando o sinal tocou. Todos se levantaram e se dirigiram a porta. Professor Gabriel vai até a sua mesa e começa a guardar suas coisas, até que vê uma folha branca em cima de seu livro preto, o número três estava escrito nela com caneta vermelha. Ele a amassa e a ignora, pega sua bolsa e sai da sala.
     A universidade é imensa, repleta de blocos com 5 andares de salas de aulas e escadas que mais se pareciam labirintos. Gabriel estava no corredor do primeiro andar do bloco 3 indo em direção ao elevador quando um aluno muito apressado esbarrou nele, fazendo com que derrubasse seu livro no chão - Hey, hey! - Pronunciou, mas sem resultados. O garoto sumiu entre os outros e o professor não o reconheceu. Abaixou-se para pegar seu livro, no momento que o pegou em suas mãos, sentiu algo embaixo da capa, quando o examinou viu que era uma folha amassada, com o número três escrito em vermelho. - Mas de novo isso? - Perguntou para si mesmo. Seguiu para o elevador.
     Quando chegou no estacionamento, aproximou-se do seu carro, pode notar algo no vidro da porta do motorista: Várias folhas brancas com o número três em vermelho estavam grudadas nele. Gabriel surtou e gritou:
- Mas que porra é essa? É brincadeira né?  - O sangue do seu corpo subiu tão rápido em sua cabeça que Gabriel ficou nervoso ao ponto que a cor do seu rosto passou de negra para vermelho rapidamente. Após alguns segundos rasgando os papeis ele entra em seu carro. O veículo parte em direção a saída do estacionamento.
     Gabriel ainda estava nervoso. Estava em uma avenida onde normalmente o trânsito era intenso, mas estranhamente, a avenida estava completamente vazia. Era noite, por volta das 19 horas, os pensamentos do professor estavam apenas em chegar em casa e relaxar, tanto que não percebeu que ultrapassou um semáforo que estava na cor vermelha. Foi um erro fatal para sua vida pois, no cruzamento um enorme caminhão vinha da sua esquerda... O acertou tão forte que com a força do impacto, seu carro capotou mais de três vezes. Todos os últimos 8 anos estudando e se aperfeiçoando foram simplesmente interrompidos ali. Todo o conhecimento de um professor estava agora misturado com destroços metálicos, cacos de vidros e asfalto... Tudo foi perdido.
     A polícia quando chegou ao local, momentos mais tarde, logo reconheceu o corpo do Professor da Universidade Pública, mas o que realmente os deixaram assustados foi que no caminhão, não havia manchas de sangue e nenhum sinal do motorista. Apenas havia uma folha branca com o número três escrito de caneta vermelha no banco do motorista.

A alma desconhecida neste momento, em algum lugar daquele bairro, pronunciou: três.

     Marcelo estava irreconhecível. Olhos mortos e acinzentados. Sua pele estava podre e fedia como carniça. Emitia com a boca sons muitos estranhos de serem compreendidos. Junto dele, havia uma criatura inumana, magra e corcunda, que não tocava os pés no chão. Movimentava-se lentamente, conduzindo Marcelo pela noite à dentro. Até que chegaram onde queriam: A casa de um casal de velhinhos. Marcelo conhecia a casa, ele também conhecia os velhinhos. Ele esteve na casa hoje mesmo, porquê está retornando? Marcelo passa a frente da criatura e segue em direção a porta de entrada. Logo quando chega, vê alguém. Alguém que não estava ali antes. É um rapaz. Completamente desmaiado junto ao que foi um dia corpos de pessoas. Ele o observa por um momento, e então avança...

A alma desconhecida neste momento, em frente à casa, pronunciou: quatro.


     
      
   


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